No fim de novembro, os cinemas ao redor do mundo começaram a exibir o capítulo final de “Wicked” (intitulado Wicked: Parte 2 no Brasil), que rapidamente quebrou recordes entre as adaptações musicais. Mas estou aqui para falar de outra adaptação que brilhou nas telonas: “Dreamgirls”, produção que contou com a superestrela Beyoncé no elenco.
Lançado em 2006 e dirigido por Bill Condon (A Grande Mentira), o filme adapta o musical da Broadway que estreou em 1981. A trama acompanha três mulheres: Effie White, Deena Jones e Lorrell Robinson que formam o trio Dreamettes. O grupo começa a despontar graças ao manipulador empresário Curtis Taylor Jr., que as transforma em backing vocals de um cantor de R&B. Tudo desanda quando ele decide reformular as Dreamettes, rebatizando-as de “Dreams” e colocando Deena como vocalista principal, deixando evidente seu interesse amoroso por ela.
Deena é interpretada pela própria Beyoncé, e a personagem é inspirada em Diana Ross, uma das referências da artista. À época do lançamento, Beyoncé já tinha seu nome consolidado na indústria musical, sendo considerada uma das maiores de sua geração. Mesmo com esse status, ela se dedicou intensamente ao processo de preparação para assumir o papel que a consolidaria também como estrela do cinema.
Bey, como é carinhosamente chamada pelos fãs, já era fã do musical de Tom Eyen. Assim que soube da adaptação, demonstrou interesse e começou a correr atrás da oportunidade. “O fato de a personagem ter tanta versatilidade foi o que me atraiu”, contou em entrevista durante a divulgação do filme (via The Age).
A jornada de Beyoncé para ser Deena Jones

Ao descobrir a produção, Beyoncé entrou em contato com o time responsável e confirmou presença nos testes de audição. Antes mesmo de realizá-los, passou a analisar vestidos de época e acionou seus próprios figurinistas para criar looks condizentes com o universo das personagens, mesmo sem saber qual papel interpretaria.
Depois disso, assistiu a diversos vídeos de Diana Ross e do grupo The Supremes para absorver o estilo da época. Criou sua própria coreografia para o teste e formou sua própria equipe de cabelo e maquiagem. Ela queria surpreender, conquistar a vaga e entrar no filme interpretando quem fosse.
“Eu me lembro quando me disseram: ‘Você não vai simplesmente conseguir este filme, terá que fazer um teste’. E eu fiquei muito feliz, porque queria que eles soubessem que eu conseguia fazer isso”, lembrou em entrevista.
Aprovada, Beyoncé iniciou uma verdadeira maratona de preparação para viver Deena, começando pela dieta “Master Cleanse”. O método consiste em um jejum de dez dias, em que ela consumiu apenas uma mistura de limão, pimenta caiena e xarope de bordo, tudo para perder cerca de 9 quilos. Segundo ela, essa etapa foi rápida, e a dieta seguiu até o fim das gravações.
Apesar da habilidade vocal que já possuía, a artista passou por treinamento para que sua voz real não transparecesse tanto na atuação. “Contratei a melhor preparadora de atores, Ivana Chubbuck, e disse a ela que faria o que fosse preciso”, contou ao blackfilm.com.
“Tive que me esforçar e realmente me dedicar à atuação. Todos os dias, até nos fins de semana, eu trabalhava com ela. Queria ter certeza de que não dependeria da minha própria voz, porque a voz da Deena era fraca. Queria carregar dor no olhar para interpretar as cenas, pensar em coisas profundas, muito diálogo interno, analisando cada página”, completou.
Veja a comparação dos testes de elenco de Beyoncé e as cenas originais do filme:
O encantamento do elenco
No início, Beyoncé chegou a duvidar de seu potencial como Deena Jones. Mas os elogios de seus colegas de elenco ajudaram a acalmá-la. Jennifer Hudson, que ganhou o Oscar por sua atuação no filme, disse ter se surpreendido com a parceira, destacando sua presença fundamental na história.
“A capacidade dela de não desistir e de se manter tão focada era incrível para mim. Eu dizia para todo mundo que, enquanto todos estavam em casa dormindo, essa garota estava trabalhando”, contou. “Ela nos inspirava, porque pensávamos: ‘Se a Beyoncé consegue, eu também consigo’. Ela sempre foi uma inspiração para mim.”

Em entrevista ao IndieLondon, Bill Condon revelou que inicialmente ficou apreensivo, sem saber se Beyoncé conseguiria ajustar sua presença de palco para o cinema. Mas essa dúvida sumiu rapidamente. “Ela fez um teste de vídeo e eu nem precisei pensar muito. Liguei para David Geffen a caminho do aeroporto e disse: ‘É ela’. Ficou claro na hora, e depois disso não vimos mais ninguém. Ela realmente queria o papel. Foi uma audição muito criativa”, afirmou.
Depois dos esforços, a recompensa

Beyoncé brilhou como Deena Jones em “Dreamgirls”, conquistando elogios da crítica e sendo apontada como uma das melhores transições de uma estrela pop para o cinema. Sua performance lhe rendeu a primeira indicação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Atriz em Filme de Comédia ou Musical, ao lado de Toni Collette, Renée Zellweger e Annette Bening. O prêmio, no entanto, ficou com Meryl Streep, por “O Diabo Veste Prada”.
Embora reconheça a importância dos prêmios, Beyoncé não criou expectativas. Ela não acreditava que conseguiria uma indicação a um evento como o Globo de Ouro. “Eu não esperava isso desse filme”, afirmou. “Eu não esperava me tornar uma estrela maior ou ganhar um Oscar por Dreamgirls. Queria apenas fazer parte de algo relevante, incrível e que mostrasse uma nova perspectiva de mim. Se as pessoas quiserem me considerar para o Oscar, ótimo, porque um dia quero ganhar um Oscar.”
A indicação não veio naquela época, mas ela voltou à premiação 16 anos depois, com a canção “Be Alive”, do filme “King Richard” (2021). Mesmo sem ter ainda a estatueta mais desejada do cinema, Beyoncé trouxe o brilho de Deena para si mesma e, como costumamos dizer, fez do limão uma limonada.
Por fim, você pode assistir à performance de Beyoncé em “Dreamgirls” no Paramount+.
Continue acompanhando o que há de mais relevante no mundo das artes aqui no Blog Hipérion!






















