O teatro brasileiro começou com os jesuítas e, ao longo dos séculos, foi se moldando, encontrando sua voz e potência. Antes, o palco, que era usado para peças que divulgavam crenças religiosas, foi ganhando espaço com espetáculos recheados de sátira política e crítica social, passando pela poesia e pelo drama humano, tornando-se símbolo de expressão e resistência.
O teatro brasileiro é rico em obras que transpassam as cortinas e permanecem marcadas no coração dos amantes das artes por muitos anos. Obras essas que abrem caminhos, mexem com o público e nos provocam reflexões até os dias atuais.
Nesta matéria, destacamos seis peças mais marcantes do teatro brasileiro. São produções que merecem ser vistas, debatidas e celebradas por muito tempo.
Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

“Auto da Compadecida” é uma peça teatral em forma de auto escrita por Ariano Suassuna em 1955. Composta por três atos, a obra foi encenada pela primeira vez em 1974, sob a direção de João Cândido.
A história acompanha a dupla João Grilo e Chicó, que vive de espertezas e golpes no sertão nordestino, envolvendo-se em grandes confusões. Após a morte, eles enfrentam o Juízo Final, onde precisarão do perdão de Nossa Senhora. Com uma crítica social impactante, a peça é uma das joias raras do teatro brasileiro e inclusive foi adaptada para o cinema nos anos 2000 e ganhado uma sequência em 2024.
A última vez que “Auto da Compadecida” foi encenada foi em 2017, com uma montagem dirigida por Antônio Pires.
Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

“Morte e Vida Severina” é um clássico de João Cabral de Melo Neto, escrito entre 1954 e 1955, e publicado em 1955. Sua primeira encenação ocorreu no final da década de 1950, pelo grupo Norte Teatro Escola do Pará. A peça ganhou várias versões e chegou a ser adaptada para o cinema nos anos 1970.
A obra narra a história de Severino, um retirante nordestino que sai do sertão em busca de melhores condições de vida no litoral. Ao longo do caminho, ele se depara com diferentes formas de morte — da violenta, provocada pelos ricos, à “morte morrida”, causada pela fome e pela pobreza — simbolizando a falta de esperança e a dura realidade do povo sertanejo.
“Morte e Vida Severina” teve sua última montagem em junho deste ano, com apresentações limitadas.
O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues

“O Beijo no Asfalto” é uma tragédia escrita por Nelson Rodrigues e publicada em 1960. Foi encenada pela primeira vez no ano seguinte, com um elenco composto por nomes como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Fernando Torres, Oswaldo Loureiro, Suely Franco, entre outros.
Considerado um dos maiores textos da dramaturgia brasileira, a peça acompanha um bancário que presencia um atropelamento e atende ao último pedido da vítima: um beijo. O ato é testemunhado por um repórter sensacionalista, que se aproveita da situação para vender jornais, além de incitar a polícia a investigar uma suposta ligação entre o bancário e o morto.
Até hoje, a peça ganha muitas remontagens por diversos grupos de teatro em todo o Brasil.
O Pagador de Promessas, de Dias Gomes

“O Pagador de Promessas” é uma peça escrita por Dias Gomes em 1959, encenada pela primeira vez no ano seguinte pelo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). A obra inspirou um filme homônimo lançado em 1962, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
Dividida em três atos, a peça acompanha Zé Burro, um homem simples que decide carregar uma cruz do interior baiano até Salvador para cumprir uma promessa. Ao chegar à igreja, é impedido de entrar por ter feito a promessa a uma entidade não ligada ao catolicismo. Com uma crítica contundente à intolerância religiosa, a peça é uma das mais marcantes da nossa dramaturgia.
A obra teve uma montagem recente no Teatro Bibi Ferreira, em São Paulo.
A Partilha, de Miguel Falabella

“A Partilha” é uma comédia dramática escrita por Miguel Falabella. A peça, que estreou em 1990, ficou em cartaz por seis anos e passou por 12 países.
A trama acompanha quatro irmãs que se reúnem após a morte da mãe para dividir os bens. No entanto, acabam confrontando segredos, ressentimentos e memórias, colocando em xeque os laços familiares — revelando as complexidades e contradições de cada uma. A montagem original contou com Natália do Vale, Susana Vieira, Arlete Salles e Thereza Pfeifer. Na temporada de 2012, a atriz Patricya Travassos substitiu Natália do Vale e permaneceu até o último dia de apresentação.
Em março de 2024, a peça ganhou uma nova versão dirigida pelo próprio Falabella, com um elenco formado por atrizes negras. Ela ficou em cartaz em São Paulo entre julho e setembro de 2024, com uma breve turnê pelo Brasil.
Roda Viva, de Chico Buarque

“Roda Viva” é uma peça escrita por Chico Buarque no final de 1967 e estreou no início de 1968. Foi sua primeira obra teatral, e originou a canção homônima, hoje um clássico da MPB.
A peça, dividida em dois atos, narra a trajetória de Benedito da Silva, um ídolo da música que é manipulado pela indústria fonográfica e pela imprensa para agradar ao público. Rebatizado como Ben Silver, ele passa por uma ascensão meteórica, seguida de uma queda abrupta. O espetáculo, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, tornou-se um símbolo de resistência ao regime militar.
Foi encenado pela última vez em 2018, pelo Teatro Oficina, em São Paulo, em comemoração aos 50 anos de sua estreia.
Essas obras mostram que o teatro brasileiro não apenas entretém — ele transforma. E, ao revisitarmos essas peças, reconhecemos sua importância e seu papel marcante em nossa cultura. Que elas sigam nos palcos e no coração de quem ama a arte.
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