Agora em 2026, um clássico dos anos 80 completa 40 anos de lançamento. Estamos falando de “Curtindo a Vida Adoidado”, obra de John Hughes, cineasta que também comandou filmes como “Clube dos Cinco” (1985) e “Quem Vê Cara Não Vê Coração” (1989), além de ter trabalhado como roteirista em “Esqueceram de Mim” (1990) e “Beethoven” (1992).
“Curtindo a Vida Adoidado” conta a história de Ferris Bueller (Matthew Broderick), um adolescente que engana os pais fingindo estar doente apenas para matar um dia de aula. Para isso, ele chama a namorada e o melhor amigo para aproveitar um belo dia em Chicago. A produção chama atenção pelo dinamismo: o personagem quebra a quarta parede e conta ao espectador os planos do seu dia de “folga”. Ele revela suas técnicas de fingimento, dá conselhos, desabafa e, assim, aproxima o público da sua história.

Apesar de o clima do longa ser leve e descontraído, nem tudo foram flores. O caos tomou conta dos bastidores e, por pouco, não levou a produção às ruínas. Brigas entre membros da equipe, problemas na edição e outros acontecimentos colaboraram para a tensão por trás das câmeras. Com isso, muitos acreditaram que as carreiras que haviam construído até então se encerrariam ali.
O cineasta John Hughes não se dava bem com o elenco do filme. A tensão começou antes mesmo das filmagens, quando Hughes se deparou com os atores pela primeira vez e afirmou que eles eram “péssimos”. Muitos dos que desejavam estrelar a produção tentaram convencê-lo do contrário, ressaltando que eram aptos para os papéis.
Nada parecia agradar Hughes. Esse seria seu primeiro filme com um elenco totalmente novo e, embora tenha optado por Broderick para interpretar o personagem principal, ele se mostrou contrário à escolha logo no início.
De acordo com o livro de memórias sobre o Brat Pack (termo popular usado para definir um grupo de jovens atores que estrelavam filmes adolescentes de sucesso), o diretor começou a sentir falta dos astros de seus trabalhos anteriores. “Um dia antes do início das filmagens, quando Hughes estava olhando as fotos de um teste de figurino com Broderick, [Alan] Ruck e [Mia] Sara, ele pode ter sentido falta do conforto e da camaradagem familiar de seu amado grupo de estrelas do passado”, relata a obra biográfica.
Matthew Broderick e John Hughes não se davam bem no set

Engana-se quem pensa que a teimosia de Hughes se limitou à pré-produção. Os conflitos durante as filmagens só aumentaram, chegando a atrapalhar o andamento do trabalho. Por isso, muitos passaram a duvidar se o projeto realmente sairia do papel.
Entre todas as confusões, Matthew Broderick e Hughes protagonizaram a maioria delas. As diferenças artísticas entre os dois tornavam difícil qualquer convivência pacífica no set.
“Levamos um tempinho para nos acostumarmos um com o outro”, disse o ator no livro de memórias “You Couldn’t Ignore Me If You Tried” (Você Não Conseguiria Me Ignorar Mesmo Se Tentasse, em tradução livre). “Quando começamos, ele me dizia: ‘Gosto quando você dá aquele sorrisinho e depois abre os olhos’. Ele era muito específico sobre qual expressão facial eu deveria fazer, e isso me assustava. Eu disse algo como: ‘Isso me deixou constrangido…’, e ele ficou muito chateado e não falou comigo por um dia. Não me deu nenhuma direção, e eu tive que ir até ele e dizer: ‘Eu não quero que você pare de me dirigir, John. Eu preciso de ajuda’. Depois, fomos resolvendo isso”, completou.
“Havia, por vezes, uma tensão latente. Ele era bastante exigente com as pessoas. Era o mundo dele, e havia uma maneira muito específica de as coisas serem feitas. Se não acontecessem daquele jeito, ele ficava zangado e frustrado”, disse Mia Sara, intérprete de Sloane Peterson.
A versão preliminar do filme deixou todos assustados

Apesar dos conflitos, as filmagens aconteceram e foram concluídas. No entanto, o elenco não esperava que a edição se tornasse mais um problema. Segundo os atores, a versão preliminar do filme – a primeira montagem completa, usada para avaliação – não agradou. Durante uma exibição teste, a reação foi negativa, e muitos sentiram que suas carreiras poderiam ter acabado ali. A desmotivação tomou conta da sala.
“Alan Ruck lembra-se da ansiedade que sentiu ao ver o filme completo pela primeira vez, na primavera de 1986, alguns meses antes do lançamento”, relata o livro (via Showbiz CheatSheet). “Naquela ocasião, o elenco assistiu ao primeiro corte do filme e, segundo Ruck, ‘ficamos arrasados’. Achávamos que estávamos horríveis, que o filme era péssimo e que nossas carreiras tinham acabado. Lembro que não houve uma única risada. Todos ficamos traumatizados. Então Jeffrey se virou e perguntou: ‘E aí, o que vocês acharam?’. Nenhum de nós soube responder. Estávamos basicamente horrorizados.”
Após o impacto da exibição teste, a edição precisou ser retrabalhada. Aos poucos, os problemas foram resolvidos e o resultado final correspondeu à visão de John Hughes.
“John Hughes pressentiu o que precisava ser feito para dar a volta por cima”, conta a autobiografia. “Ele disse: ‘Deixem-me em paz por duas semanas’. Pegou o material, editou e o resultado ficou brilhante. Havia, obviamente, um editor, mas Hughes fez o trabalho – ele era muito bom”, acrescenta.
Sem mágoas

Os bastidores de “Curtindo a Vida Adoidado” (1986) foram tensos, mas, apesar de tudo, os conflitos ficaram no passado. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Matthew Broderick contou que os desentendimentos entre ele e o cineasta duraram pouco.
“Ele levava o trabalho muito a sério, é isso que quero dizer. John não era uma pessoa desleixada. Mas também não guardava rancor e não sabia muito bem como lidar com situações difíceis”, comentou.
John Hughes faleceu aos 59 anos, vítima de um ataque cardíaco, enquanto caminhava em Nova York, na manhã de 6 de agosto de 2009. Na época, Broderick prestou condolências à família do cineasta: “Estou triste e chocado com a morte do meu amigo de longa data. Ele era maravilhoso e extremamente talentoso. Meu coração está com sua família”, declarou o ator.
“Curtindo a Vida Adoidado” foi um sucesso na carreira de Hughes, arrecadando mais de US$ 70 milhões na bilheteria mundial. Além disso, a obra foi eleita um dos melhores filmes adolescentes de todos os tempos. O impacto foi tão grande que, dez anos após o lançamento, o roteiro de Hughes foi publicado no livro “Ferris Bueller’s Day Off: Screenplay”. Já nos anos 90, a emissora norte-americana NBC lançou a série “Ferris Bueller”, baseada no filme de 1986. A produção contou com a participação de Jennifer Aniston e permaneceu no ar por apenas uma temporada.
Por fim, “Curtindo a Vida Adoidado” está disponível para streaming no Paramount+.
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